Visita para poderes saber mais sobre mim ;)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

PECADOS ÍNTIMOS


Virtudes públicas, vícios privados: sob esta verdade lapidar foi construído o poder de estadistas, estrelas do espetáculo, escritores de eleição.

Resultado de imagem para pecados intimos

Mas uma vez descobertas, a perigosidade de algumas fantasias sexuais mais picantes pode abalar reputações e até sistemas políticos. Eis o retrato de alguns dos maiores transgressores da História.

O que há de comum entre Dominique Strauss-Kahn (DSK), em tempos não muito distantes considerado um génio da alta finança, e o imperador romano Calígula? Aparentemente nada, tão díspares são os tempos e seus costumes, mas, na verdade, a mistura entre muito poder e muita transgressão sexual é hoje tão letal como no tempo em que os Césares andavam pelo mundo. Casado pela terceira vez com a estrela da televisão francesa Anne Sinclair, DSK presidia aos destinos do Fundo Monetário Internacional e alimentava as mais altas aspirações políticas quando, em 2011, foi surpreendido pela acusação de assédio sexual vinda de uma empregada de um hotel nova-iorquino. A seguir, desfiou-se o rosário de décadas de atos semelhantes: a jornalista e escritora Tristane Bahon revelou ter sido atraída por ele para um apartamento vazio, quando se preparava para o entrevistar. Em breve, entrevistadora e entrevistado estavam no chão, com este último a procurar freneticamente o fecho dos jeans e do soutien da jovem, mais nova 30 anos do que ele. Pouco depois, a própria mãe da jornalista, Anne Mansouret, revelou ter mantido um breve caso com DSK, quando ambos eram militantes destacados do Partido Socialista Francês: “Não tinha qualquer gentileza. Fazia sexo como um violador”, revelou a quem a quis ouvir. O que DSK não parece ter percebido é que não é John Kennedy quem quer e a reverência dosmedia pelas figuras públicas, própria dos anos 60, já se perdera para sempre. Depois do escândalo, restou-lhe a demissão e o divórcio.

Escândalos reais

Esta expectativa de que o poder basta para abafar o escândalo parece ter sido comum, por exemplo, nas famílias reais europeias. Bastará lembrar, por exemplo, que o bisavô de Isabel II, o Rei Eduardo VII, exasperou sua mãe, a Rainha Vitória, com uma reputação (totalmente merecida, refira-se) de amante insaciável. Além de ter colecionado conquistas desde muito jovem até à morte (a última das quais foi Alice Keppel, bisavó de Camila, Duquesa da Cornualha), Eduardo VII era um frequentador assíduo da noite parisiense, a tal ponto que um dos mais exclusivos bordéis da cidade mandou construir uma cadeira para o então Príncipe de Gales. Graças ao seu design ergonómico, Sua Alteza Real podia satisfazer-se com duas mulheres ao mesmo tempo, sem molestar as suas frágeis costas.

Tamanho apetite foi herdado por dois netos do Rei: Eduardo VIII (depois Duque de Windsor) e George, Duque de Kent. O primeiro, conhecido do mundo por ter abdicado do trono por amor a uma mulher divorciada pela segunda vez (a norte-americana Wallis Simpson), foi, enquanto Príncipe de Gales, um bon vivant com certo pendor para mulheres casadas. No princípio da década de 30, a sua amante de longa data, Thelma Furness, apresentou-o à amiga Wallis, pedindo-lhe que tomasse conta do irrequieto príncipe enquanto ela partia para uma demorada viagem. O que a outra cumpriu, com inexcedível competência. Sobre estes amores capazes de abalar uma dinastia, já muito se disse, escreveu e especulou. Mas todos os investigadores são unânimes em reconhecer a Wallis Simpson um poder sexual capaz de fazer esquecer a Eduardo todos os seus deveres. Para alguns, ao facto não serão estranhos os segredos por ela aprendidos durante uma alegada experiência num bordel oriental.

Menos dramáticas, mas igualmente desestabilizantes para a imagem pública da família real britânica, eram as chamadas indiscrições do irmão mais novo de Eduardo, George, Duque de Kent. Nascido a 20 de dezembro de 1902, morreu muito novo, quando, em plena II Guerra Mundial, o avião da Royal Air Force em que seguia se despenhou na Escócia. Deixava mulher (a Princesa Marina da Grécia) e três filhos muito pequenos, mas, na corte, sabia-se que George era chorado por uma pequena multidão de antigos amantes, de ambos os sexos. Entre eles: a escritora de livros cor-de-rosa Barbara Cartland, o dramaturgo Noel Coward e a herdeira Poppy Baring. Mas dois desses múltiplos affaires, anteriores e posteriores ao casamento com a princesa grega, preocuparam mais a família real do que os outros: um deles foi a socialite Kiki Preston, a quem a toxicodependência valeu o ultrajante título de “Seringa de prata”, e o espião Anthony Blunt. Se pensarmos que este último, como se revelaria décadas mais tarde, trabalhava secretamente para os serviços de informação soviéticos, compreenderemos até que ponto eram perigosos os apetites deste tio da Rainha Isabel II.

Não se pense que a monarquia perdeu, nos últimos anos, esta vocação libidinosa. Victor Emmanuel, o septuagenário chefe da casa de Saboia (filho de Umberto, último rei de Itália), foi detido, em 2006, por envolvimento numa rede que fornecia “meninas de programa” aos clientes de vários casinos italianos. Saiu em liberdade um ano depois, mas, como quase sempre acontece nestes casos, da fama de devasso não se livrou. O mesmo se aplica, noutras latitudes, ao Rei da Suazilândia, Mswati III, casado com 13 raparigas muito jovens, frequentemente contra a vontade das próprias. Nos últimos meses, uma candidata ao posto de 14.ª esposa fugiu in extremis para a vizinha África do Sul enquanto uma outra, depois de surpreendida em pleno delito com o ministro da Justiça, diz ser tratada como uma prisioneira pelo marido e pela sogra.
Nas cortes episcopais o odor a santidade nem sempre é mais intenso do que nas civis. É longa a história dos apetites inconfessáveis de bispos e cardeais. Entre 1990 e 2010, a Igreja Católica gastou cerca de 2 mil milhões de dólares por causa das denúncias de casos de abusos sexuais cometidos por padres em suas dioceses pelo mundo inteiro. Segundo o jornal The New York Times, em 161 das 177 dioceses norte-americanas ocorreram denúncias de abusos sexuais cometidos por religiosos. Os casos mais escabrosos envolveram crianças em países como Brasil, Irlanda, Alemanha, Bélgica e Estados Unidos, entre outros. Em Boston (EUA), pelo menos mil pessoas, a maior parte crianças, teriam sido vítimas de abuso sexual por mais de 250 sacerdotes e empregados da Igreja, desde 1940. Durante décadas, o Vaticano silenciou o assunto ou, não o conseguindo, adotou punições leves demais face à gravidade das acusações. Entre 2001 e 2010, apenas 20% dos três mil padres acusados de molestar sexualmente os fiéis foram julgados pelas instâncias católicas e somente uma centena deles foi condenada a perder a batina ou deixou voluntariamente a Igreja. Mas não se pense que tais casos são apanágio apenas da Igreja Católica. Nos Estados Unidos, o televangelista Jimmy Swaggart convertia milhares de pessoas para a sua saga moralista que via no heavy metal (em particular no músico Ozzy Osbourne) manifestações satânicas. Até ao dia em que foi fotografado na companhia de uma prostituta. O caso fez luz sobre a vida real do religioso: adúltero e promíscuo, ele era também viciado em pornografia desde muito jovem.

Transgressões no feminino
Em 1992, Madonna causou pranto e ranger de dentes em muita alma puritana, ao lançar o álbum (e o livro) Erotica, onde glosava vários tipos de fantasias sexuais, desde práticas sadomasoquistas ao ménage à troisà quatreà cinq… Na origem de tanto escândalo, terá estado não tanto este “catálogo de atividades” mas o facto de ser uma mulher a protagonizá-las livre e voluntariamente. Na verdade, a grande história das transgressões sexuais escreve-se, antes de mais, no masculino, já que o sexo – sabe-se – pode ser uma forma de poder como qualquer outra. Houve (e haverá sempre) exceções que confirmam a regra. A “mãe” de todas as transgressoras parece ter sido a Imperatriz Catarina da Rússia, que viveu no mesmo hedonista século XVIII que “produziu” o Marquês de Sade (autor de vários clássicos da literatura erótica, que deu o nome ao sadismo) e Giacomo Casanova. Nascida na Prússia, viu-se muito jovem casada, por conveniência diplomática, com um herdeiro da coroa imbecil. Nessa gaiola dourada, Catarina poderia ter-se dado por vencida, mas cedo afogou as mágoas com vários amantes, o mais famoso dos quais foi Grigori Potemkin. Quando a paixão entre ambos arrefeceu, Catarina encarregou-o de procurar mancebos para o seu exército de prazer. Estes eram testados pelas suas damas e, uma vez aprovados, enviados para a cama da Imperatriz. O apetite sexual tornou-se o epitáfio histórico desta personalidade que fez mais pela afirmação dos interesses da Rússia na Europa do que qualquer homem da dinastia Romanov. Porventura graças aos exageros dos seus muitos inimigos externos e internos, dizia-se que era de tal maneira insaciável que chegou a manter relações com os cavalos da sua guarda, mas raramente se acrescenta que foi responsável pelo desenvolvimento do ensino superior e que, durante o seu reinado, ninguém foi condenado à morte na Rússia.
Mais a Oriente, no Japão da primeira metade do século XX, chamaria a atenção o caso de Sada Abe, rapariga da classe média que, depois de ter sido violada por um amigo da família aos 15 anos, foi levada pelo pai para uma casa de gueixas de Tóquio. Essa forma sofisticada de servir o sexo oposto não se coadunava, no entanto, com os apetites da jovem, que voluntariamente ingressaria na prostituição. Foi então que se perdeu de paixão por um cliente casado, Kichizo Ishida. Inconformada pelo facto de o partilhar com outra mulher, assassinou-o na madrugada de 18 de maio de 1936, amputou-lhe os genitais e guardou-os na mala de mão. Segundo a polícia, que a deteve três dias depois desta ocorrência, Sada terá praticado necrofilia com o membro do falecido. Esta macabra história inspirou o filme de Nagima Oshima, O Império dos Sentidos.
Meio século depois da escritora Anaïs Nin (amante de muitos homens, entre os quais o escritor Henry Miller) ter causado um tremendo escândalo com obras como Delta de Vénus ou Debaixo da Redoma, a escrita erótica no feminino (sobretudo se for autobiográfica) continua a despertar um misto de fascínio e horror. Que o diga Catherine Millet, especialista em arte contemporânea, curadora de várias exposições importantes, que se tornou mundialmente famosa ao conquistar milhões de leitores com o polémico A Vida Sexual de Catherine M.. Neste suposto ensaio, a autora deixou cair a máscara de respeitada crítica de arte ao expor publicamente os detalhes da sua movimentada vida sexual, descrevendo de forma explícita uma irrefreável sequência de relações sexuais que envolviam desconhecidos, grupos de até 150 pessoas e os mais variados cenários, entre clubes, beiras de estradas, praças públicas ou casas de amigos. As descrições precisas de cenas sexuais e as fotos íntimas dividiram os críticos. Alguns viram no livro uma expressão da liberdade feminina, outros consideraram-no pornografia pura. Mas o que importa é que a obra vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares em 47 países.
Tão diversas como os próprios seres humanos, as fantasias sexuais tidas por transgressoras ou mesmo por desviantes continuam a arruinar reputações, a abalar impérios e sobretudo a conquistar audiências que frequentemente mascaram o fascínio sob uma aparente repulsa. Para esta aura de perigosidade contribui em muito a consciência de que a nascente do desejo é a mente e não a pele. Aquele inexplicável mecanismo que, dizia Flaubert (o criador dessa máquina desejante que era Madame Bovary), podia tornar a múmia de Cleópatra muito mais apetecível do que uma simples e carnal mulher.

Sem comentários:

Enviar um comentário